O paradoxo Flávio por que o mesmo sangue produziu um Tito e um Domiciano?
Em 24 de junho de 79 d.C., morria Vespasiano, o imperador que tirara Roma do caos da guerra civil e fundara uma dinastia. Sua sucessão parecia a mais segura da história romana: dois filhos adultos, treinados para governar e sustentados por um pai de prestígio militar e finanças saneadas. Em 96 d.C., o último dos Flávios caía sob punhais de conspiradores. Entre um momento e outro, Roma conheceu um príncipe que chamou de “amor e delícia do gênero humano” e outro cujo nome os senadores mandaram raspar das inscrições.
Como uma mesma casa produziu figuras tão distintas? A pergunta é histórica, mas também filosófica: a virtude se ensina, ou o poder apenas revela o que já estava lá?
O pai que zombava do trono
Titus Flavius Vespasianus nasceu em 9 d.C., numa família de equestres do interior da Sabina, sem o pedigree das velhas casas senatoriais. Era um soldado competente e um administrador prático, com o humor seco de quem sabe que chegou lá por acaso e por mérito, na proporção que a política permitir. Quando as legiões o aclamaram em 69, depois do ano dos quatro imperadores, ele tinha consciência de que sua legitimidade era recente e de que precisava de uma narrativa.
Fabricou uma: oráculos, profecias orientais, curas milagrosas no Egito. Mas o mais revelador é o que Suetônio nos conta sobre sua relação com essa propaganda. Vespasiano tributou a urina coletada nas latrinas públicas, que as lavanderias usavam, e, quando Tito reclamou da indignidade do imposto, teria posto uma moeda sob o nariz do filho perguntando se ela cheirava mal. Pecunia non olet. Na velhice, ao sentir a morte chegar, ele teria murmurado: “Ai de mim, acho que estou me tornando um deus.” Segundo o mesmo biógrafo, chegou a deixar instruções bem-humoradas sobre o custo do próprio funeral.
A divinização póstuma do imperador era um rito de Estado. Vespasiano o encarava como uma formalidade, quase uma piada compartilhada com a posteridade. Sabia que o poder é um ofício, e que a aura em torno dele é um instrumento de governo, não uma verdade sobre quem o exerce. Essa lucidez sobre si mesmo foi, talvez, a única herança que não conseguiu transmitir.
Dois filhos, duas infâncias
Falar em “mesma educação” exige cautela. Tito nasceu em 39 d.C. e Domiciano em 51 d.C.: doze anos os separavam, e a casa dos Flávios mudou radicalmente nesse intervalo.
Tito cresceu na corte de Cláudio, educado junto a Britânico, o filho do imperador. Suetônio relata que ele estava à mesa no banquete em que Britânico foi envenenado e chegou a provar da bebida fatal. Aprendeu, portanto, como o poder devora os próximos e como a cortesia pode esconder o veneno. Depois serviu na Germânia e na Britânia, e comandou a campanha da Judeia, encerrada com a queda de Jerusalém em 70.
Domiciano viveu outra Roma. Os Flávios atravessaram anos difíceis, com o pai em desgraça sob Nero, e a tradição diz que o garoto cresceu em condições modestas. Em 69, com 18 anos, ficou sitiado no Capitólio pelos partidários de Vitélio e escapou disfarçado de sacerdote de Ísis. Quando o pai finalmente venceu, Domiciano era o irmão mais novo, sem glórias militares, mantido à margem: recebeu honras, mas pouca responsabilidade. Enquanto Tito dividia o comando com Vespasiano, ele era ornamento.
Não se trata de desculpar ninguém. Mas o “mesmo sangue” nunca foi o mesmo ambiente.
O que Aristóteles diria
Na Ética a Nicômaco, Aristóteles rejeita a ideia socrática de que a virtude é simplesmente conhecimento. Ela nasce do hábito: tornamo-nos justos praticando atos justos, corajosos praticando atos corajosos. Isso exige três coisas: uma disposição natural, uma criação que dirija os prazeres e as dores para os objetos certos e leis que sustentem o hábito quando o argumento falha. No Livro X, ele admite que os discursos, por si sós, movem apenas os já bem-nascidos e bem-criados.
Aplicado aos Flávios, o esquema é ilustrativo, ainda que incômodo. Tito teve a ginástica moral de uma vida pública supervisionada: campanhas, disciplina militar, um pai exigente por perto. Domiciano teve o lugar de espectador, sem tarefas que forjassem caráter, com muita ambição e pouca prática de autocontrole. Sua falta de virtude seria, pela lógica aristotélica, menos falha de ensino do que ausência de treino.
Mas convém desconfiar da simetria. Tito não foi um santo desde o berço. Antes de assumir o trono, era temido: comandou a guarda pretoriana com mão dura, mandou executar um adversário político logo após um jantar e circulavam rumores de excessos e de um romance escandaloso com a rainha judia Berenice. Muitos esperavam dele um novo Nero. Ao ser imperador, dispensou Berenice, cessou as perseguições por traição e passou a governar com generosidade notória. É dele a frase, registrada por Suetônio, “perdi um dia”, dita ao perceber que não havia beneficiado ninguém em vinte e quatro horas.
Isso reforça o argumento aristotélico de outra maneira: a virtude de Tito parece ter sido uma conquista, feita no exercício do cargo, e não um dom. Convém lembrar também que ele reinou apenas dois anos, entre o Vesúvio, o incêndio de Roma e uma peste, e morreu aos 41. Um reinado curto é uma prova incompleta. Ninguém sabe o que vinte anos de poder teriam feito com ele.
O que o poder faz com o ego
É aqui que o contraste com o pai se torna mais interessante. Vespasiano zombou da própria apoteose, e Domiciano a exigiu em vida. Segundo Suetônio, documentos oficiais da chancelaria passaram a começar com dominus et deus noster, “nosso senhor e deus”. Os romanos haviam suportado por séculos a ficção de que o princeps era apenas o primeiro dos cidadãos. Domiciano abandonou a ficção.
O Domiciano da tradição literária é o do medo: a mania de vigiar, o hábito de passar horas solitárias espetando moscas com um estilete, as execuções de senadores, o exílio de filósofos. Tácito e Plínio, o Jovem, dele nos legaram o retrato mais sombrio, mas ambos eram senadores que sobreviveram ao regime e tinham interesse em condená-lo depois. A pesquisa moderna corrige parte do quadro: Domiciano foi um administrador zeloso, cuidou das finanças e da justiça provincial, concluiu o Coliseu e reconstruiu o Capitólio. O tirano e o bom funcionário coexistiram.
Isso torna o caso mais perturbador. A megalomania de Domiciano não parece um defeito de competência, e sim de segurança psicológica. Quem cresceu como coadjuvante e chega ao topo sem ter aprendido a rir de si mesmo talvez precise que o mundo confirme seu valor a cada instante. O culto à própria pessoa funciona como compensação. Vespasiano, que subiu do nada e sabia disso, podia dispensar a adoração. Domiciano, filho do imperador, nunca deixou de sentir a sombra do pai e do irmão e tentou apagá-la com o brilho de uma divindade.
O poder, nesse sentido, não corrompe por si só: amplifica. Um ego bem ancorado o usa como ferramenta, como fazia o pai, ou o deixa pesar pouco, como parece ter feito Tito. Um ego inseguro o transforma em espelho. E o espelho, na monarquia absoluta, ninguém ousa quebrar, até que alguém ouse. Domiciano foi assassinado em 96 por membros da própria corte, e o Senado decretou a damnatio memoriae, a condenação de sua memória.
A lição que os Flávios deixam
A dinastia deixa três lições que a antiguidade formulou melhor do que muitos manuais modernos de liderança.
A primeira é que o caráter se forma por prática, não por sermão. Os filhos de um bom governante herdam um sobrenome, e o resto precisa ser construído com responsabilidades reais, erros corrigidos e limites impostos.
A segunda é que a virtude no poder é frágil, e que julgá-la exige tempo. Tito é lembrado como modelo em parte porque morreu cedo, antes de ser posto à prova por décadas de adulação.
A terceira é a que Vespasiano resumiu, talvez sem querer, na sua última piada: quem consegue rir da própria divinização ainda governa a si mesmo. O verdadeiro perigo do poder está menos na força que ele concede do que na perda da capacidade de se ver com distância e ironia.
